quinta-feira, 24 de maio de 2007
τῆλε πάθεια
O sabor das minhas unhas envernizadas
O teu sorriso no ar que me rodeia, enquanto escreves poemas sobre a morte ainda em vida.
Arsénico, arsénico - dizes tu. Eu digo Absinto.Não consigo deixar de esperar que a vida me traga algo indiscritivelmente satisfatório.Absinto, neste momento sinto-te igual a mim.Seremos iguais?
Dança entre nós o fumo do despender das horas.
Nem eu nem tu, muito menos nós,neste momento.
Penso depressa demais. Penso desfocado. A clareza de todas as coisas ao alcance do teu olhar.
Se eu conseguisse ver o mundo com esse detalhe também me fartaria da vida, certamente.
Ignorance is a bliss.
-Aquilo que penso nem sempre é o que digo, sabes?
Penso que quero ficar nos ramos desta árvore que contemplo no jardim; ficar nas gargalhadas das crianças que, inocentes, não entendem os perigos que se escondem no escuro.
A viagem que faço em mim. Vejo mais que vísceras e plasma. Vejo tanto, no entanto nada. tu consegues ver com clareza o que tenho em mim ?
Tens em ti o caminho para o entendimento do que se passa em mim, para a compreensão do que não raciocino, do que não entendo do que não vejo por detrás da minha máscara.
A nossa solidão assistida.Lado a lado, tão longe.Pensamos na próxima linha, na próxima obra da suprema arte que nós, - só nós - entendemos tão bem.
Mas não nos cruzamos.Cruzar seria tocar e isso não pode ser, isso não faz parte do acordo,não pode ser. A arte de partilhar um olhar. De falar calado de gritar silenciosamente.
A magia incompreensível duma telepatia que julgava não existir, a metafisica da clarividência.
Isto que não pode acontecer, aconteceu sempre que nos olhamos.
E gostava que visses o mundo dos meus olhos. Gostava que te olhasses como se fossem os meus olhos que o fizessem e entendesses assim tudo aquilo que não te consigo dizer!
Que as nossas confissões fossem de facto confissões, que a nossa ambivalência se desvanecesse, que me visses sem máscara, que eu quero ver-te também.
O Platonismo da solidão assistida numa noite de Maio.
sexta-feira, 11 de maio de 2007
Noctem
É de noite e o manto cai leve sobre a cidade.Todos dormem. Eu não. Não gosto do dia. Das pessoas que o habitam. Do quotidiano.
Gosto das luzes alaranjadas que cobrem a minha cidade.
Gosto de passar horas a fio à janela olhando nada, só a sentir a frescura da maresia que faz parecer que as casas, os carros, todas as coisas suam com o rubor dos quartos fechados, das casas desarrumadas. A única coisa que as gentes que vagueiam pelos dias se dispõem a fazer, a bem-fazer, é a viver esse suor, com a cara arrubreada ao calor das horas que passam, o coração aos pulos nos lençóis humedecidos.
Contemplo estas realidades e sonho com a minha próxima noite, na esperança que algo mude, que alguém grite na rua, chame todos com urgência e lhes ensine a viver a beleza da negritude e dos prazeres bohemios que com ela caem sobre a cidade...
- Gostava de ser eu a fazê-lo. Talvez amanhã me disponha a fazê-lo, a gritar-lhes para viverem o calor da calçada à noite, a beleza do céu que os cobre...
Já ninguém olha as estrelas.
Voltam a casa, feitos autómatos, numa correria desenfreada, correm para o nada, só para se apressarem a fechar os olhos, só para não terem de viver. Nem olhar as estrelas . Eu não. Eu olho pela janela, nesta cadeira de verga, da perspectiva do meu copo de absinto, observo o rio com a sua profundidade obscura, tentadora, e fico assim, contemplativa amando cada minuto desta quente noite em que o rio bate devagar mas teimoso nas pedras sujas negras do Ginjal.
Porque dormem eles – quando os carros cessam de remar pelo alcatrão fora,- porque se fecham eles nos quartos num ritual de dormitório, numa espécie de recolher obrigatório auto-imposto; pergunto eu : porque dormem eles? E ninguém me responde.
O Absinto, fiel companheiro, pede por mais açúcar e o meu corpo por luar.
Quando tudo o que enche o meu quarto são sombras cálidas, assumo ter decidido viver sozinha. As pessoas são mais frias que as minhas sombras companheiras, que dançam, que se mexem e que não me abandonam até de manhã.
Um certo calor boreal embate em mim de súbito. A maresia que há pouco cobrira toda a cidade transforma-se agora em lágrimas, o pranto das coisas inertes.
Talvez amanhã, sim, talvez amanhã o faça, porque já se faz de dia.
Talvez amanhã invada o dormitório e profetizando, explique a beleza da noite.
E passo a viver de dia.
Sora.
