sexta-feira, 11 de maio de 2007

Noctem

É de noite e o manto cai leve sobre a cidade.Todos dormem. Eu não. Não gosto do dia. Das pessoas que o habitam. Do quotidiano.

Gosto das luzes alaranjadas que cobrem a minha cidade.

Gosto de passar horas a fio à janela olhando nada, só a sentir a frescura da maresia que faz parecer que as casas, os carros, todas as coisas suam com o rubor dos quartos fechados, das casas desarrumadas. A única coisa que as gentes que vagueiam pelos dias se dispõem a fazer, a bem-fazer, é a viver esse suor, com a cara arrubreada ao calor das horas que passam, o coração aos pulos nos lençóis humedecidos.

Contemplo estas realidades e sonho com a minha próxima noite, na esperança que algo mude, que alguém grite na rua, chame todos com urgência e lhes ensine a viver a beleza da negritude e dos prazeres bohemios que com ela caem sobre a cidade...

- Gostava de ser eu a fazê-lo. Talvez amanhã me disponha a fazê-lo, a gritar-lhes para viverem o calor da calçada à noite, a beleza do céu que os cobre...

Já ninguém olha as estrelas.

Voltam a casa, feitos autómatos, numa correria desenfreada, correm para o nada, só para se apressarem a fechar os olhos, só para não terem de viver. Nem olhar as estrelas . Eu não. Eu olho pela janela, nesta cadeira de verga, da perspectiva do meu copo de absinto, observo o rio com a sua profundidade obscura, tentadora, e fico assim, contemplativa amando cada minuto desta quente noite em que o rio bate devagar mas teimoso nas pedras sujas negras do Ginjal.

Porque dormem eles – quando os carros cessam de remar pelo alcatrão fora,- porque se fecham eles nos quartos num ritual de dormitório, numa espécie de recolher obrigatório auto-imposto; pergunto eu : porque dormem eles? E ninguém me responde.

O Absinto, fiel companheiro, pede por mais açúcar e o meu corpo por luar.

Quando tudo o que enche o meu quarto são sombras cálidas, assumo ter decidido viver sozinha. As pessoas são mais frias que as minhas sombras companheiras, que dançam, que se mexem e que não me abandonam até de manhã.

Um certo calor boreal embate em mim de súbito. A maresia que há pouco cobrira toda a cidade transforma-se agora em lágrimas, o pranto das coisas inertes.

Talvez amanhã, sim, talvez amanhã o faça, porque já se faz de dia.

Talvez amanhã invada o dormitório e profetizando, explique a beleza da noite.

E passo a viver de dia.

Sora.

Um comentário:

Anônimo disse...

Fiquei abismaravilhado com a tua escrita!
Ve-se que es talentosa... oxala que um dia te tornes escritora...
Era so para te encorajar na expancao do teu potencial literario-bloguista. Continua assim e supreenderas o mundo! Parabens!
Bjs,

Claudio.